11 de abril de 2009

Mudanças radicais

Atentem no pormenor do casaco. Fui eu que fiz! Sou uma mãe mesmo prendada:)

Esta noite já sei o que me espera, a minha vida vai mudar radicalmente. Sei que vou adormecer com um menor a dormir no quarto ao lado e como que por magia vou encontrar lá um adulto quando acordar.

Pois é, o Diogo faz amanhã 18 anos.

Prevejo que este seja um texto grande, por muito que me esforce não consigo resumir os meus 18 anos de mãe em meia dúzia de linhas. Se não tiverem paciência não o leiam, optem só pelo começo e pelo fim…aviso já que não prometo um final feliz…é só um final, com todo o amor que uma mãe pode conter em si.

O Diogo é o meu único filho e esta gravidez foi muito desejada, era tudo o que eu queria, era tudo o que o pai do Diogo queria, esperei alguns anos até ter essa certeza.

Talvez não saibas, Diogo, ou não te lembres de algumas coisas que aqui vou relatar…enjoy the trip…espero que nem te passe sequer pela cabeça "não foi esta a mãe que eu pedi, esta mulher é doida!"

Foi uma gravidez atribulada, talvez o prenúncio de uma maternidade também atribulada. Estive em repouso absoluto durante 5 meses e meio, em risco de perder o bebé.
Finalmente nasceu o "moço", 14 dias antes do esperado, foi a nossa prenda de aniversário, fazemos anos no dia anterior e seguinte.

Nasceu com 2.600 kg, pequenino como uma minhoca. Eu, ainda na mesa de partos levei a minha primeira "descasca" de mãe acabadinha de parir: "Está a ver esta placenta? Completamente envelhecida. Vê-se logo que é uma mãe fumadora!"
Na manhã seguinte o idiota do médico de serviço ao fazer a ronda pelas enfermarias, olhou para o Diogo e gritou alarmado "Esta criança tem problemas. Levem-no imediatamente para a incubadora para ficar em observação!" E ficou, em observação e sobretudo em perfuração, durante 6 dias foi picado em tudo o que era sítio e os resultados não eram nunca conclusivos, detectaram-lhe uma série de doenças que no fim não passaram de suposições. Sempre foi um bebé saudável.

A minha estadia no hospital foi de gritos, não teve um único momento de tédio…

- No 1º dia, ainda meio atabalhoada resolvi fazer um reconhecimento da zona, contra o aviso das auxiliares que tinham acabado de lavar o corredor "não saia agora que o chão está muito escorregadio"…resultado, o espalhanço foi tão grande que as senhoras tiveram alguma dificuldade em colar-me as peças que se espalharam pelo corredor.

- Ao 2º dia, depois de MUITO lutar contra o vício, já andava de pijama a cravar cigarros aos futuros pais na sala de espera do bloco de partos. Conversa puxa conversa e "Desculpe, por acaso não tem um cigarro que me dê?" Depois, era só fugir para a casa de banho, trepar para cima da sanita, atirar o fumo para a janelinha alta que dava para a rua e cruzar os dedos para não ser apanhada em flagrante delito.

- Ao 3º dia, na sala de neonatologia uma mãe, muito novinha, felicitava-me com o ar mais sério deste mundo, muito solidária, ao ler a etiqueta "parto eutócico", que estava junto ao berço (tuperware a bem dizer) do Diogo "Parabéns, teve um parto erótico!"

- Ao 4º dia morria de saudades da minha cadela e exigi a sua presença no hospital. Consegui! Desci ao pátio para a abraçar…ganhei umas valentes lambidelas e ela, um provocante sorriso escarlate de tanto me lamber os chinelos marroquinos tingidos de vermelho.

- Ao 5º dia, cansada de ver a minha colega de quarto chorosa, sem tratar o filho pelo nome, resolvi pôr tudo em pratos limpos, chamei uma assistente social e desmascarei o pesadelo que a desgraçada estava a viver. O bebé já não ficaria "para" aquele casal bem-posto de meia-idade…os pertences do Diogo foram divididos com o António durante cerca de um ano.

- Ao 6º dia, finalmente saímos…e fomos logo para casa? Não! Fomos para uma pastelaria, porque fartos de hospitais estávamos nós e o Diogo precisava de conhecer o mundo urgentemente!

O Diogo por escrito:

- 8 meses - Resolveu que estava na altura de experimentar o vício da mãe. "Comeu" um cigarro meu, desfaleceu por completo e só voltou a si depois de vomitar quilos de fios de tabaco, a caminho do hospital.

- 10 meses - Dentro de um carrinho de supermercado, fez as delícias da clientela que se ria com vontade ao passar por nós…eu, mãe babada, a achar que o meu filho era um doce. Desenganem-se, parecia um filme de terror barato, quando resolvi olhar com olhos de ver estava o rapaz completamente ensanguentado agarrado com unhas e dentes às miudezas de frango que comprei para a cadela e a chupar moelas como se fossem rebuçados.

- Quando fez um
ano, resolveu voltar às experiências perigosas e atacou literalmente o "ponche" que fazia as delícias dos convidados…ficou com um comportamento um pouco estranho, nada que não se resolvesse com algumas horas de sono.

- 1 ano e meio - Achava que as bochechas serviam apenas para armazenar mantimentos, na praia amealhava nelas tudo o que fosse mais escuro que a areia. Se me descuidava por momentos encontrava-o radiante, com umas bochechinhas lindas e luzidias…podia-se de lá extrair de tudo um pouco: carochas vivas e mortas, cócós de cão, beatas de cigarros, conchas…

- 2 anos e meio - Resgatei-o do meio da estrada em frente à nossa casa, em pleno trânsito de Agosto "Não faxas barulho mãe, pa penxarem que tô moto!". Foi a partir daí que decidimos procurar outra casa, afastada da estrada.

- 3 anos – Em casa de uns amigos, hora do jantar, depois da atribulação do dia passado junto à piscina, já lavadinho e passadinho a ferro…correria doida de um amigo, resgate do Diogo que se tinha atirado à zona mais funda da piscina…comentário do artista ao ser pescado "Ai que xenxação!"

- 3 anos e meio – Julgam que se perdia de amores por bonecos animados? Não! Perdia-se de amores por noticiários. Meses a remoer e a chorar a guerra na Jugoslávia… "Mãe…quando for grande não quero ir lutar para a Bósnia! Por favor quando tocarem à campainha para me virem buscar diz-lhes que não posso ir, que estou em Lisboa!"

- 4 anos – Verão, uma loja de centro comercial, apeada de tias. Experimento umas calças num provador apertado, saio para me ver ao espelho e o Diogo de imediato ocupa o meu lugar…ouço uma vozinha atrevida "Mãe, é assim que isto se põe?", "O quê Diogo?"…tarde de mais, o atleta do sexo já tinha invadido a loja com um preservativo pendurado na pila. A minha reacção? Perdi de imediato o tom bronzeado próprio da época! Como aquilo foi lá parar? Descobri depois que vinha num panfleto de uma discoteca, o rapaz adorava apanhar toda a papelada com que se cruzava. Como sabia ele para que servia aquilo? Não sei, verdade se diga, ainda hoje estou para saber.

- 4 anos e meio – Choro compulsivo e de revolta após o meu arranque com o carro à porta de casa "És uma criminosa, não tinhas nada que matar o pêssego que estava caído na estrada!"…senti-me uma autêntica brutamontes…

- 5 anos - Zanga atribulada com o pai. Consequências, a sua primeira tentativa de fuga…a arrastar uma mala enorme cheia de brinquedos e uma moldura com a foto dos pais…"Vou-me embora de casa! Agora só levo isto, assim que tiver oportunidade venho buscar os móveis do meu quarto!"
...
- 6 anos – Primeiro dia na escola primária, sala de aula com a professora, os colegas e os todos os pais. Muito afoito, muito engraçado, muito seguro de si, até que a professora resolve informar "Como sabem, vou passar estes 4 anos com vocês!"…com olhar de cachorro abandonado e lágrima ao canto do olho "Por favor mãe, não me deixes aqui 4 anos sem ir a casa!"

- 7 anos – Chegadinho da escola onde acabara de discutir o 1º referendo sobre o aborto com a professora Aliete (sua musa inspiradora, de quem era fã incondicional)…"Mãe, és contra o aborto não és?" "Não! Sou a favor!"…a primeira grande desilusão da sua vida, a sua própria mãe, era, na opinião dele, uma assassina a soldo…"Se fossem todas como tu não existiam bebés no mundo e só cá viviam velhotes!"…toma e embrulha! Agora explica-lhe Ana/Mãe...e expliquei-lhe, e foi pior a emenda que o soneto porque a minha estória do DIU, que era um aparelho e tal e tal, resultou numa catástrofe. No dia a seguir, tinha uma série de mães confusas à porta da escola "Mas que raio foste tu dizer ao Diogo? O meu filho perguntou-me porque é que eu não punha um rádio igual ao da mãe do Diogo dentro de mim para não ter mais bebés."

- 8 anos – A seguir ao jantar, eu, despreocupada a ver televisão na sala…"Mãe, já fizeste um "broch*" ao pai?"…caiu-me tudo aos pés, a visão turvou-se-me, as palavras ficaram entaladas na garganta. Sem resposta imediata resolveu perguntar ao pai. Não sei que resposta obteve, o certo é que chegou à brilhante conclusão "Hummmm…nem precisas responder, pela carinha que o pai fez, está-se mesmo a ver que já fizeste!"

E as estórias foram-se repetindo, cada qual mais insólita, mais disparatada, mais difícil de resolver…

- 15 anos – Teve uma depressão grave…

- 17 anos – Não sabe o quer fazer da vida, salta de curso em curso em busca de respostas.

Mas é um jovem/homem sensível e muitoooooo especial…é o meu filho, o meu Diogo, a minha vida!

16 comentários:

afectado disse...

Bonito relato em jeito de resumo de uma vida :)

Parabéns ao moço!

A saída que ele teve aos 8 anos... deves ter ficado de todas as cores :)

forteifeio disse...

Diogo, tens uma mãe especial. Parabéns!!

Ana GG disse...

Obrigada, os parabéns serão entregues.
:)

Fiquei mesmo de todas as cores...nem sabia onde me havia de meter.

Ana GG disse...

Forteifeio
Obrigada!
Tenho a certeza que cada um de nós é especial à sua maneira.

redjan disse...

' ... a minha vida ! '...

Está tudo dito .....

Pronúncia disse...

Bem, adorei ler este resumo da vida do Diogo e da mãe do Diogo. O que eu me ri!

Uma coisa é certa, a vossa vida em conjunto não é nada, mas mesmo nada monótona!

Parabéns para o Diogo e dá-lhe uma grande beijoca da minha parte! :)

Ana GG disse...

Red
Poderia ser esse o título...

Ana GG disse...

Pronúncia
A nossa vida é um verdadeiro livro de aventuras.
Tal mãe tal filho, entre um e outro, venha o diabo e escolha.

Obrigada! Ele vai ler as beijocas amanhã.
=)

Al-T disse...

Ola!

Está um post mt giro, adorei a parte de "depois voltar para ir buscar os moveis" e a do fellatio

=)

PARABÉNS à mae, ja passa da meia noite!

E ao filho tb mas como a ele n o "conheço"...

Ana GG disse...

Al-T
O Diogo era um ponto!
=)

Obrigada, estão entregues!

LBJ disse...

Ana,

Mamã babada, muitos parabéns…
Welcome to the club;)

Ana GG disse...

LBJ
Obrigada, partner!
;)

LBJ disse...

Ana,

O welcome to the club, tinha a ver com uma pergunta que me fizeste em tempos e que nunca respondi, mas fico muito contente por sermos partners, obrigado:)

Ana GG disse...

LBJ
Já não faço ideia qual era a pergunta, mas OK, o certo é que pelos vistos já pertenço ao clube (não arrisco mais palpites).
;)
Partner

Silvia F. disse...

Parabéns atrasados! Estou sempre atrasada em tudo.
O teu relato foi óptimo e achei muito curto tal o prazer que tive em ler as aventuras da Ana e filho.
Nota-se uma complicidade extrema, é lindo!

Beijinhos a ambos

Ana GG disse...

Silvia
Obrigada! Não estás nada atrasada, acertaste em cheio. Isto é um pouco confuso, porque somos dois a fazer anos em dias seguidos.

Ainda bem que gostaste do meu PEQUENO relato.

De facto somos grandes companheiros. Quase sempre tipo cão e gato, mas sabemos que estamos lá para o que der e vier, não temos segredos (ou por outra, temos pouquinhooooooos).
;)

beijinho


obrigada pela visita!

pessoal que gosta de estar a par destas andanças

facebokiANOS a par desta coisa