13 de setembro de 2009

Voos mal calculados

Peço desculpa por esta minha ausência, por ultimamente não ter "dado de vaia" (deixem-se de preguiças e procurem o significado). Acontece que não pretendo fazer deste espaço uma obrigação, mas sim uma inspiração, uma vontade, mesmo que fraca, mas não deixando nunca de o ser.

Os meus neurónios, aqueles poucos ainda em actividade, têm andado numa perfeita agitação a tentar processar novas informações e em busca de soluções para os desafios profissionais que me esperam.

De facto não foi para me perder em justificações que aqui vim. Foi para falar de assuntos mais sérios, muito mais feios, mais dolorosos…"coisas" que me têm afligido e dado que pensar...

O início desta semana foi doloroso, a 2km da minha casa, durante uma madrugada deu-se um violento acidente. Soube da notícia logo pelo café da manhã no sítio do costume…o carro ficou desfeito, os quatro ocupantes morreram todos. Fiquei constrangida, muito incomodada…

À hora do almoço, uma colega liga-me a dizer que três alunos da nossa escola e um outro que também lá tinha estudado tinham morrido num acidente. O tal acidente.

O condutor, P., 19 anos. O N., uma paz de alma, 18 anos. Os outros dois tinham sido meus alunos, tinham ambos 16 anos…dois deles eram uns safados problemáticos, dois deles faziam-me rir tantas vezes, dois deles gostavam muito da minha disciplina e penso que, de mim também.

Toda a comunidade escolar os conhecia, eram populares, davam nas vistas, muitas vezes davam problemas e dores de cabeça aos professores e colegas, não eram uns "santinhos" mas eram, no fundo, sensíveis e amigos de quem lhes estendia a mão ou um simples sorriso.

O Z. inventou a frase que se popularizou na turma "A professora dá-lhe bem!". Não tirava a mochila das costas, não começava a trabalhar sem que me chegasse ao pé dele e o motivasse com palavras meio a sério, meio a brincar, era uma tarefa fácil. Devo ter-lhe dado o 1º "4" da sua vida, encheu-se de orgulho! Gorducho e desengonçado, sempre a rir, sempre com o coração na ponta dos punhos, na ponta da língua, pronto para a pancada, fruto das tantas vezes que também ele fez de saco de boxe, fruto do que assistiu aos irmãos mais velhos, fruto de ter assistido ainda puto ao tiro que o irmão deu na avó, fruto de e de e de….

O H. emprestou-me o seu casaco num dia de actividades ao ar livre em que me queixei do frio. Entrava-me constantemente sala adentro no inicio da aula, apesar de já não ser meu aluno…"Tenho saudades, a professora era fixe!", "Eu era bom nisto, não era?"…"Eras H.! Quando atinavas, eras! Mas agora sai-me da sala antes que me enerve a sério." No ano lectivo que passou integrou uma turma "especial" foi o melhor aluno.

Os corpos foram para a mesma igreja. Os corpos estavm muito molestados. As famílias discutiram entre si. Não queriam os filhos ao pé do que os conduziu para a morte em parceria de miúdos que quase desconheciam a palavra risco. Queriam que fossem os pais deste a pagar os funerais. Gritaram, ofenderam-se e a GNR teve de intervir.

Gostaria de acreditar que foi uma consequência movida pelo desespero das perdas. Gostaria de acreditar que estes comportamentos realmente não existem. Gostaria de acreditar mas já não sei em que acredite…

No funeral estava a vila quase em peso, os colegas passaram palavra e os jovens vestiram-se de branco. Num ritual que me afligiu, distribuíram-se t-shirts com a foto dos 4 e uma frase de saudade.

Olhei em redor e senti a falta de tantos meus alunos, sossegados, mais estudiosos…menos solidários, mais frios…

Os outros, os "safados", estavam lá todos. Desesperados, sofridos. Levaram as urnas em braços durante a distância longa. Retiraram as pás dos coveiros para serem eles a cobrir os corpos dos amigos com a última terra.

O P., esse, teve de ser sepultado em sítio mais afastado…A família, nem consigo imaginar o desespero e acumular de dores, da perda, da injustiça, da falta de solidariedade.

Eram os 4 uns putos, mereciam as oportunidades que a vida tinha para lhes dar, essa é que é a verdade.

Que descansem em paz!

14 comentários:

Pronúncia disse...

Que descansem em paz.

maria disse...

Ana

"
Hoje suicidou-se um amigo do Pedro que eu conhecia desde pequeno.
Memorizei-o nas visitas que,no Verão, fazia à Murgeira,às vezes com um saquinho de peras que me oferecia.Com ele levava um velho boxer.Chegava com um sorriso de puto ,muito doce e conversava brandamente,sob o manto do sol e a brisa morna dos dias."


Escrevi isto em Maio de 2008.Escrevi para mim própria
São tristezas que hoje partilhámos

mfc disse...

Vamos morrendo sempre um pouco... as cadeiras vão ficando vazias!

SRRAJ disse...

Beijo.

Dylan disse...

Mesmo na morte, partilhada por todos, há pessoas que continuam a combater a dor com vinganças fúteis. É a natureza humana, é a vida...

LBJ disse...

Nestas alturas as palavras faltam sempre e são sempre de mais, RIP :(

Beijos

Pulha Garcia disse...

Lamento saber. Lamento pelas famílias e pelas vidas tão jovens. Por vezes precisamos destes acontecimentos para reflectir sobre as nossas vidas...

Vitor disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Vitor disse...

Moro em vila franca de Xira…e sem exagero algum, tu nem imaginas o quanto acabas de contar se passa por aqui…e aproveito, para homenagear o meu amigo Zé Luís que quando treinava bicicleta (Fazia triatlo, já com alguma relevância no país), foi atropelado por um “puto”com dezoito anos, sem carta de condução…triste, muito triste!
Paz à sua alma e, que junto com os teus alunos falecidos, partilhem o céu, com a felicidade que lhes fugiu na terra.

Bj*

forteifeio disse...

Ontem li o texto e fiquei sem palvras.

um beijo

Margarida disse...

Princeeesaaa!!
Fiquei destroçada com o que li.
Sabes que partilho a mesma dor...mas desconhecia os contornos macabros da última homenagem.

Beijo da sargenta.

Ana GG disse...

Agradeço a todos as vossas palavras.

Porque estou com problemas técnicos e não consigo publicar comentários com a minha conta e desta forma dá uma grande trabalheira, vou responder-lhes a todos aqui.

Peço desculpas, muitaaaaaassssss, pelo atraso!

Pronúncia
Isso é que importa mesmo!

Maria
Bem vinda aqui ao olhARES!
São tristezas que nos fazem pensar nas injustiças a que a vida nos sujeita.

mfc
É a única certeza que temos.
Quando se trata de jovens, a dor parece que se sente ampliada.

SRRAJ
Beijos também para ti!
Obrigada

Dylan
Foi isso que me chocou. Num momento tão difícil em que dor supostamente deveria ser partilhada por todos, não consigo entender como existiu ainda espaço para vinganças.

LBJ
Sem palavras!

Pulha
Foi precisamente o que fiz. Ainda mais sendo mãe de um jovem da idade deles.

Vitor
Sabemos de antemão que a maioria dos jovens são irresponsáveis. Neste caso, o condutor tinha a carta à 4 meses e conduzia em excesso de velocidade.
Paz às suas almas!

Forte
Um beijo!

Margarida
Eu sei que partilhas.
Os contornos são como dizes "macabros"!

Inconstante disse...

fazes-me chorar logo de manhã...beijos

Ana GG disse...

Inconstante

Não era essa a minha intenção!

Pelos vistos pertences à minha tribo...a do choro e "pele de galinha".

Beijos


obrigada pela visita!

pessoal que gosta de estar a par destas andanças

facebokiANOS a par desta coisa