
Um dia, quando sentir que o momento é propício, nem que seja aos 60 anos (bonita idade que diga-se de passagem já esteve muito mais longe), e porque estou convicta que nessa altura ainda terei muita genica para fazer coisas...BAZO DAQUI PARA FORA!
Desde quase sempre, me acompanhou esta sensação (por vezes incómoda) de que ESTA não era vida para mim.
Talvez desde o dia em que nasci afogueada no cordão umbilical que se teimou em enrolar-se à volta do meu pescoço, enquanto a minha mãe aguardava em ânsias a chegada da "parteira encartada"...
Talvez desde a infância com a cabeça 3 vezes partida (situações pouco comuns a uma menina bem comportada...que se supunha com laçarotes cor de rosa na cabeça e não com uma colecção de buracos e pontos cosidos a frio), em que chorava desalmadamente baba e ranho sempre que me sentava numa cadeirinha feita à minha medida, para ouvir as estórias da minha mãe (que pena tenho não ter herdado o jeito para as saber contar)e em que, com 3 e 4 anos, me apaixonava perdidamente pelos amigos do meu irmão, onze anos mais velhos do que eu...
Talvez desde a pré-adolescência, em que gritava slogans em defesa do proletariado e colava cartazes políticos, ainda quase proibidos, em paredes da cidade, a horas impróprias para uma menina daquela idade (em escapadelas irresponsáveis com os irmãos mais velhos, enquanto os pais dormiam sonos profundos), ainda que sem saber ao certo ao que andava, mas perfeitamente convicta que preferia ser uma defensora da classe operária, a uma tontinha agarrada às Barbies...
Talvez desde a adolescência em que em gostos bizarros, comia a canja da mãe, com batatas fritas caseiras, ou se as houvesse, cerejas cristalizadas, a boiar no prato junto dos bagos de arroz. Em que esculpia caixões com garfo e faca, no puré de batata, até deixar a mãe roxa de nervos...
Com o passar dos anos, cultivei a esperança de que, não sem algum esforço, me tornaria uma adulta "normal", ou quase...como se querem os adultos. Engano meu! Continuo com as bizarrices, a comer as sobremesas e os cafés, antes da refeição, se assim me apetecer e porque a comida vai toda parar ao mesmo sítio. Viciei-me no café, pouco desejável e em copo de plástico, da bomba da gasolina, porque não tenho paciência para estar sentada nos "Cafés", à séria.
Fui desenvolvendo uma aversão, que vai aquecendo em banho-Maria às obrigações banais e do que era suposto ser uma boa dona-de-casa, ou uma mãe tradicional (desenganem-se os mal intencionados, porque não são só defeitos, sou muito organizadinha e encontro soluções no meio disto tudo).
Começo, seriamente, a cansar-me desta maldita rotina, desta, por tantos almejada, NORMALIDADE.
Não nasci para ser funcionária pública...
Não nasci para contar tostões, nem para pagar empréstimos a peso de ouro...aliás, não fui mesmo programada para lidar com a pressão dos dinheiros.
Não nasci para passar a ferro, para limpar o pó e para cozinhar por obrigação a horas certas.
Não nasci para me enfiar em supermercados...
Acho que está quase, quaseeeeeee, a chegar a minha hora de adquirir alguns direitos (porque a idade é um posto)...
Comer e beber quando me apetece
Dizer e ouvir, o que me apetece
Escolher estar com quem me apetece
Rir e chorar quando me apetece
...tentando, contudo, não ferir a liberdade dos outros, porque no fundo, não sou uma besta.
Um dia, já não assim tão longe, BAZO!!! Vou para um sítio onde me sinta verdadeiramente útil, onde sinta que faço alguém verdadeiramente feliz. Onde possa, descalça e com T.shirts coçadas do Sol, ajudar alguém. Despida de todas as hipocrisias que esta sociedade arrogante, que se acha o padrão, o modelo, nos envolve e se nos impõe escandalosamente.
Assim que as pessoas que me são mais queridas, ganharem asas para voar para distintas paragens...assim que me puder dar ao luxo de sentir saudades...VOU!
A rotina mata-me lentamente...sou, definitivamente, uma mulher de paixões...
Assim que as pessoas que me são mais queridas, ganharem asas para voar para distintas paragens...assim que me puder dar ao luxo de sentir saudades...VOU!
A rotina mata-me lentamente...sou, definitivamente, uma mulher de paixões...
_____confissões do meu umbigo_____










